23 de janeiro de 2016

As bibliotecas - por Valter Hugo Mãe

Crônica de Valter Hugo Mãe no Jornal de Letras, 15 a 28 de maio - Via Biblioler

As bibliotecas são como aeroportos. São lugares de viagem. Entramos numa biblioteca como quem  está a ponto de partir. E nada é pequeno quando tem uma biblioteca. O mundo inteiro pode ser convocado à força dos seus livros.

Todas as coisas do mundo podem ser chamadas a comparecer à força das palavras, para existirem diante de nós como matéria da imaginação. As bibliotecas são do tamanho do infinito e sabem toda a maravilha.

Os livros são família direta dos aviões, dos tapetes-voadores ou dos pássaros. Os livros são da família das nuvens e, como elas, sabem tornar-se invisíveis enquanto pairam, como se  entrassem para dentro do próprio ar, a ver o que existe dentro do ar que não se vê.

O leitor entra com o livro para dentro do ar que não se vê.

Com um pequeno sopro, o leitor muda para o outro lado do mundo ou para outro mundo, do avesso da realidade até ao avesso do tempo. Fora de tudo, fora da biblioteca. As bibliotecas não se importam que os leitores se sintam fora das bibliotecas.

Os livros são toupeiras, são minhocas, eles são troncos caídos, maduros de uma longevidade inteira, os livros escutam e falam ininterruptamente. São estações do ano, dos anos todos, desde o princípio do mundo e já do fim do mundo. Os livros esticam e tapam furos na cabeça. Eles sabem chover e fazer escuro, casam filhos e coram, choram, imaginam que mais tarde voltam ao início, a serem como crianças. Os livros têm crianças ao dependuro e giram como carrosséis para as ouvir rir. Os livros têm olhos para todos os lados e bisbilhotam o cima e baixo, o esquerda e direita de cada coisa ou coisa nenhuma. Nem pestanejam de tanta curiosidade. Querem ver e contar. Os livros é que contam.

As bibliotecas só aparentemente são casas sossegadas. O sossego das bibliotecas é a ingenuidade dos incautos. Porque elas são como festas ou batalhas contínuas e soam trombetas a cada instante e há sempre quem discuta com fervor o futuro, quem exija o futuro e seja destemido, merecedor da nossa confiança e da nossa fé.

Adianta pouco manter os livros de capas fechadas. Eles têm memória absoluta. Vão saber esperar até que alguém os abra.

Até que alguém se encoraje, esfaime, amadureça, reclame direito de seguir maior viagem. E vão oferecer tudo, uma e outra vez, generosos e abundantes. Os livros oferecem o que são, o que sabem, uma e outra vez, sem refilarem, sem se aborrecerem de encontrar infinitamente pessoas novas. Os livros gostam de pessoas que nunca pegaram neles, porque têm surpresas para elas e divertem-se a surpreender. Os livros divertem-se.

As pessoas que se tornam leitoras ficam logo mais espertas, até andam três centímetros mais altas, que é efeito de um orgulho saudável de estarem a fazer a coisa certa. Ler livros é uma coisa muito certa. As pessoas percebem isso imediatamente. E os livros não têm vertigens. Eles gostam de pessoas baixas e gostam de pessoas que ficam mais altas.

Depois da leitura de muitos livros pode ficar-se com uma inteligência admirável e a cabeça acende como se tivesse uma lâmpada dentro. É muito engraçado. Às vezes, os leitores são tão obstinados com a leitura que nem acendem a luz. Ficam com o livro perto do nariz a correr as linhas muito lentamente para serem capazes de ler. Os leitores mesmo inteligentes aprendem a ler tudo. Leem claramente o humor dos outros, a ansiedade, conseguem ler as tempestades e o silêncio, mesmo que seja um silêncio muito baixinho. Os melhores leitores, um dia, até aprendem a escrever. Aprendem a escrever livros. São como pessoas com palavras por fruto, como as árvores que dão maçãs ou laranjas. Dão palavras que fazem sentido e contam coisas às outras pessoas. Já vi gente a sair de dentro dos livros. Gente atarefada até com mudar o mundo. Saem das palavras e vestem-se à pressa com roupas diversas e vão porta fora a explicar descobertas importantes. Muita gente que vive dentro dos livros tem assuntos importantes para tratar. Precisamos de estar sempre atentos. Às vezes, compete-nos dar despacho. Sim, compete-nos pôr mãos ao trabalho. Mas sem medo. O trabalho que temos pela escola dos livros é normalmente um modo de ficarmos felizes.

Este texto é um abraço especial à biblioteca da escola Frei João, de Vila do Conde, e à biblioteca do Centro Escolar de Barqueiros, concelho de Barcelos. As pessoas que ali leem livros saberão porquê. Não deixa também de ser um abraço a todas as demais bibliotecas e bibliotecários, na esperança de que nada nos convença de que a ignorância ou o fim da fantasia e do sonho são o melhor para nós e para os nossos. Ler é esperar por melhor.

*texto compartilhado do blog Bibliotecas do Brasil

28 de dezembro de 2015

Promover a leitura e o acesso aos livros é um ato de amor

"Fazer um bem, fazer um bem a quem se quer bem... 
e também a quem nem se conhece bem." 
Bia Bedran

Fazer um bem ao próximo nem sempre é difícil e não precisa ser algo "grandioso". Pequenos gestos e atitudes podem fazer a diferença na vida das pessoas. A literatura tem o poder de encantar e de aproximar as pessoas e, fazer algo de bom para alguém através dela é, no mínimo, terapêutico (para ambos os lados)! Falo do lugar de quem viveu durante alguns meses a experiência de ler para crianças hospitalizadas e de quem, recentemente, teve a oportunidade de ler poesias para idosos em um asilo. Essas experiências engrandecem a alma, nos fazem refletir sobre o sentido de estarmos aqui na terra. Chego a acreditar que o bem maior é feito para nós mesmos enquanto nos voltamos para o outro. Promover o acesso aos livros literários e partilhar boas histórias é também fazer um bem ao próximo. 







O ano de 2016 já está na porta e o post de hoje é dedicado a quem deseja fazer algo pelo próximo, tendo como objetivo a promoção da leitura, e ainda não sabe como e por onde começar. A minha sugestão é: comece aos poucos e depois as coisas boas vão fluindo, novas ideias surgem... Já dizia um filósofo que agora não me recordo o nome,  mas sua frase ficou em mim: "semeia o grande no pequeno".






Veja algumas ações que podem ser feitas por você ou por um grupo de amigos para compartilhar boas histórias e incentivar a leitura:
  • LIVROS LIVRES - você pode "esquecer" livros em bancos de praças, consultórios, metrôs, ônibus, etc. Com certeza, quem encontrar ficará muito feliz. Deixe um recadinho do tipo "Eu não estou perdido! Sou um livro livre, depois que você me ler, liberte-me em outro lugar para que cada vez mais pessoas possam me conhecer..."
  • VARAL DE LIVROS - estender um varal e pendurar alguns livros para que as pessoas possam escolher e levá-los para casa. Esta é uma ideia bacana, que conheci através da página do Facebook Leitura no varal, idealizada pela amiga Letícia e que nos serve de inspiração.
  • CIRANDA DE LIVROS - pode ser feita entre amigos que gostam de ler ou por amigos que têm filhos e querem incentivar a leitura. Pode também ser realizada na escola de seu filho ou com a sua turma (se você for professor). Escolha títulos de livros de acordo com a quantidade de participantes e organize um rodízio entre os livros, até que o seu livro retorne à você.
  • FAZER UM BEM -  procure hospitais ou casa de idosos e se ofereça para ler e/ou contar histórias, poesias... Você pode procurar por Ong's e Associações que realizam este trabalho e tentar se inscrever. Uma delas é a Associação Viva e deixe viver, que tem pólos por vários estados do Brasil.
  • CORREIO LITERÁRIO-  que tal propor aos alunos uma troca de cartas entre eles e algum autor preferido durante um período do ano? Pelo Facebook é possível encontrar vários autores e convidá-los para participar deste projeto. A culminância pode até ser um encontro com o autor!
  • SACOLA DE LEITURA (ou bolsa viajante) - escolha um ou mais livros e coloque numa sacola bem bacana, que pode ser de tecido ou TNT, e empreste para a criança levar para casa e ler com a família. Para escolha da criança é interessante o sorteio ou de repente, seguir a lista da turma. Esta ação pode ser feita entre amigos também e se tiver um boneco personagem do livro fica bem lúdico, já fiz uma vez com o Gildo, da Silvana Rando. A criança recebia uma bolsa com o livro, o boneco, uma folha branca e lápis de cor para registrar sobre a história.
  • TROCA-TROCA -  disponibilizar alguns livros para troca, do tipo "leve um e deixe outro". Você pode fazer parceria com algum comércio do seu bairro e utilizar o espaço para colocar os livros ou até mesmo colocá-los em caixotes numa praça com as regras de uso.


Estas são apenas algumas ideias para inspirar e motivar as pessoas a partilharem leituras e semearem o amor pelos livros. Escolha uma (ou várias) e faça a diferença na vida de alguém! Boas semeaduras! 

12 de dezembro de 2015

Sobre semeaduras...


Dona Sofia é uma simpática senhora, professora aposentada, que sempre gostou muito de ler, especialmente poesias. Ela conhecia muito bem as sensações e emoções que as palavras dos poemas podem despertar no coração de cada um. O que dona Sofia mais gosta de fazer agora é cultivar flores para vender na cidade (e assim complementar sua renda), e claro, mergulhar num bom livro.


Sua casa era diferente de todas as outras. Tinha paredes decoradas com poesias, escritas à mão por ela, com sua bela caligrafia. Havia versos por toda a casa... Ela acreditava que, desta forma, deixava vivo cada pedacinho de emoção que sentira a partir dos poemas lidos.
Os anos foram passando e um belo dia ela percebeu que não havia mais espaço para escrever. O que faria, então? Não queria deixar as poesias escondidas nos livros... E ela resolveu fazer cartõezinhos poéticos decorados com as flores que cultivava para distribuir a cada morador da cidade.
Para isso contou com a ajuda de Seu Ananias, o único carteiro daquele lugar e que fazia isso com muita alegria.


Seu Ananias ficava encantado com a casa de Dona Sofia assim, repleta de poesias!


Ele entregava as correspondências todos os dias e num belo dia foi surpreendido por um cartão com o seu endereço. Onde já se viu? Carteiro receber carta! - pensou.
Neste cartão estava o poema "Meus oito anos", de Casimiro de Abreu. Ahhhhh, Seu Ananias ficou deslumbrado! Lia e relia várias vezes aquele poema... A partir daí, recebia constantemente cartões de Dona Sofia e ficava cada vez mais interessado e encantado. 


Num belo dia de trabalho, Seu Ananias começou a observar as pessoas da cidade e percebeu algo diferente: todos da cidade liam poesias! E não foi só isso! Aquele momento mexeu tanto com as emoções de Seu Ananias que ele fez algo muito especial...

***
André Neves, como sempre, nos presenteia com seus livros, mas este, para mim, se tornou muito especial! Daqueles livros que você lê, suspira, abraça... Maravilhoso!
Eu já tinha o hábito de escrever poesias pela minha casa e de presentear pessoas com cartõezinhos poéticos, por isso me senti um pouco "Dona Sofia", e este livro me emocionou tanto, mas tanto que nunca mais deixo de fazer isso. Semearei poesias por onde e como eu puder, sempre!

***

A caligrafia de Dona Sofia, texto e ilustrações de André Neves, Editora Paulinas.
Recebeu o selo Acervo básico FNLIJ 2007.

10 de dezembro de 2015

Bola vermelha


Bola vermelha é um daqueles livros que mostram que muitas vezes menos é mais. Com apenas três cores (branco,vermelho e preto) e algumas palavras, a autora construiu uma narrativa visual que envolve o leitor do início ao fim do livro!
As ilustrações foram feitas inicialmente com tinta, lápis e gravuras e depois foram digitalizadas. Vanina conta que este livro nasceu durante uma viagem para a praia e que as escolha das cores deve-se à como ela as imaginou naquela tarde, perto do mar, ouvindo uma bela melodia.


Uma pessoa encontra uma bola vermelha  e sem saber de onde ela veio, quer devolvê-la para o lugar a que pertence. Cada página representa, com sensibilidade, as hipóteses que o personagem faz em busca do lugar de origem da bola.




Em cada hipótese, uma surpresa! Mesmo assim, ele não desiste de procurar...


Até que algo especial acontece...


                                         ... e finalmente a bola vermelha retorna ao seu lugar!


BOLA VERMELHA, texto e ilustrações de Vanina Starkoff, publicado pela Editora Pulo do gato.

2 de dezembro de 2015

Dica cultural

No Espaço de leitura, em São Paulo!

Dezembro é o mês de celebrar o circo no Espaço de Leitura! Nos dias 5 e 6 de dezembro, o projeto trará oficinas de malabares, acrobacias de solo e palhaço

Além disso, tem atração musical com o Projeto Guri e o espetáculo circense do Grupo Irmãos Becker. Gratuito!

No mês de dezembro, o Espaço de Leitura, realizado pelo Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo, oferece uma programação especial para as férias! Inspirada no universo lúdico dos palhaços, da mímica e do circo, a programação traz espetáculos, oficinas e vivências artísticas que vão celebrar a cultura circense. Neste sábado, às 11h, o Espaço recebe o grupo Circo Herói para duas vivências circenses: uma oficina de malabares e outra de acrobacias de solo. A primeira atividade, por exemplo, vai trabalhar técnicas de malabarismo com objetos diversos, como bolas, fitas, claves e suingues. “A ideia é, por meio do circo, fortalecer o vínculo entre pais e filhos. Que eles se toquem, se olhem, e que um consiga perceber as limitações do outro, mas também as habilidades”, explica o artista Rodrigo Guimarães. Já a oficina de acrobacia começa com um aquecimento de solo e depois as equipes serão divididas em duplas, com limite de 30 pessoas por atividade.

Ainda no sábado, às 15h, tem apresentação musical com o Projeto Guri. Neste espetáculo, os alunos do curso de violão do polo São Mateus, mostram um repertório de transita entre o erudito e o popular. O grupo, dirigido pelo professor Alexandre Ribeiro, alterna formações entre tutti, duo e solos, criando um show dinâmico em que até a plateia é convidada a participar.

Já no domingo, às 11h, é a hora de trazer os pequenos para uma oficina de palhaços, com o artista Paul Zanon. Será uma vivência aberta para a família onde serão trabalhadas as gags clássicas da palhaçaria, jogos teatrais, exercícios corporais, mímicas, entre outras práticas cênicas cômicas. Tudo para ter um gostinho do que é ser um verdadeiro palhaço.

Depois, às 15h, o Espaço de Leitura apresenta o espetáculo “O mundo dos Irmãos Becker”, do Grupo Irmãos Becker. Os artistas surpreendem com a criatividade de seus números contemporâneos de malabarismo e equilíbrio de alto nível técnico. Malabaristas cômicos que encantam a plateia com a diversidade de materiais apresentados: mini bike de 40 cm de comprimento, chapéus, diabolôs, claves, bolhas de sabão e dança com facas.

O Espaço de Leitura é um projeto socioeducativo do Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo. As atividades são sempre gratuitas e acontecem aos sábados e domingos. Além da programação especial, o Espaço oferece, de terça a domingo, um acervo de livros infantis e infantojuvenis, dispostos em seis quiosques temáticos por gênero literário. É para ler e se divertir.